Por que São Jorge é o padroeiro do Corinthians?
São Jorge é o padroeiro do Corinthians por uma soma de razões, e o próprio clube reconhece que nenhuma delas foi comprovada de forma definitiva. A explicação mais aceita liga a devoção à compra, em 1926, das terras da antiga Fazenda São Jorge, no Tatuapé, que deram nome à sede social, o Parque São Jorge, e colocaram o santo no endereço e no dia a dia corintiano.
Ao longo do texto, o leitor conhece as três hipóteses registradas pelo Corinthians, a história da propriedade que já tinha nome de santo, quem foi o soldado venerado em 23 de abril, as razões de sua popularidade em São Paulo e o modo como a devoção cresceu durante o longo período sem títulos.
Resumo rápido sobre São Jorge e o Corinthians
- Padroeiro: São Jorge, soldado cristão venerado como mártir.
- Dia do santo: 23 de abril, também celebrado como Dia do Torcedor Corinthiano.
- Explicação mais citada: o nome da propriedade comprada em 1926, a Fazenda São Jorge.
- Outras versões: herança do Corinthian inglês e escolha feita pelos fundadores.
- Sede: Parque São Jorge, na Rua São Jorge, 777, no Tatuapé, zona leste de São Paulo.
- Presidente na compra: Ernesto Cassano.
- Posição do clube: o Corinthians afirma que não há uma verdade única sobre a origem.
- Sincretismo: na umbanda, São Jorge é associado ao orixá Ogum.
Uma fazenda que já tinha nome de santo
Nos anos 1920, o Corinthians não tinha campo próprio. A área que mudaria essa situação ficava às margens do Rio Tietê, na zona leste, e pertencia a dois primos de origem libanesa, Nagib Sallem e Assad Abdalla, que a haviam batizado de Fazenda São Jorge. O terreno era usado pelo Sírio, clube da colônia sírio-libanesa, que mandava ali suas partidas.
O Corinthians frequentava o local como visitante até que, em 1926, sob a presidência de Ernesto Cassano, comprou o terreno, com pagamento parcelado ao longo de dez anos. A escritura daquele ano foi entregue em cópia ao clube pelo Colégio Notarial do Brasil em 2017, quando a compra completou 91 anos. Algumas fontes datam a aquisição de 1928, ano em que o estádio foi inaugurado, em 22 de julho, com empate de 2 a 2 contra o América do Rio de Janeiro.
Com o clube instalado, o nome da fazenda passou para a sede, para o estádio, conhecido como Parque São Jorge antes de receber o nome oficial de Alfredo Schürig, e para a rua de acesso. A partir daí, o santo deixou de ser apenas uma referência geográfica e passou a fazer parte da identidade alvinegra.
As três explicações registradas pelo clube
O Corinthians apresenta oficialmente três versões para a adoção do padroeiro. A primeira é a coincidência de nomes: ao se mudar para terras chamadas São Jorge, em uma rua com o mesmo nome, o clube teria simplesmente abraçado a devoção que vinha com o lugar. É a hipótese com mais base documental, porque a compra e o nome da fazenda estão registrados.
A segunda versão foi relatada por Dom Arnaldo Beltrame, ex-capelão do clube. Segundo ele, a devoção seria uma tradição herdada do Corinthian inglês, que inspirou o nome do time paulista. São Jorge é o padroeiro da Inglaterra, o que dá sentido à hipótese, mas não há documento conhecido que mostre o santo como patrono formal do clube londrino.
A terceira atribui a escolha aos próprios fundadores, em 1910. Nesse caso, a devoção seria anterior à compra do terreno, e o nome da fazenda teria funcionado como confirmação. Também não há registro escrito localizado que comprove essa versão. Diante disso, o clube adota uma postura prudente e afirma que nenhuma das narrativas se impôs como verdade única.
Quem foi São Jorge
Pela tradição cristã, Jorge foi um soldado do Império Romano, ligado à região da Capadócia, na atual Turquia, que se recusou a renegar a fé durante a perseguição promovida pelo imperador Diocleciano e foi executado por volta do ano 303. Sua festa é celebrada em 23 de abril, data atribuída à sua morte.
A imagem mais conhecida do santo, montado a cavalo e vencendo um dragão com uma lança, vem de lendas difundidas na Idade Média. A figura do guerreiro que enfrenta o mal ajudou a torná-lo padroeiro de reinos e corporações militares, entre eles Inglaterra e Portugal, de onde a devoção chegou ao Brasil.
No país, São Jorge ganhou forte apelo popular e, nas religiões de matriz africana, especialmente na umbanda, é associado ao orixá Ogum, divindade ligada à guerra e ao ferro. Essa dupla presença, no catolicismo e nos terreiros, ampliou o alcance do santo entre as camadas populares, justamente o público que formou a base da torcida corintiana.
Fé em tempo de jejum
A relação entre a torcida e o padroeiro ganhou intensidade nos anos 1960 e 1970, período em que o Corinthians ficou sem conquistar títulos relevantes. Entre o Paulista de 1954 e o de 1977, foram cerca de 22 anos e meio de espera, e a figura do santo guerreiro passou a simbolizar resistência e esperança.
A canção “Meus 20 Anos”, do violonista Paulinho Nogueira, traduz esse momento: o narrador se dirige ao padroeiro pedindo força para um dia devolver as provocações sofridas pela torcida. O fim do jejum, em outubro de 1977, na final contra a Ponte Preta, foi recebido por muitos torcedores como uma resposta às preces acumuladas durante a seca.
O 23 de abril no calendário alvinegro
O dia de São Jorge virou também o Dia do Torcedor Corinthiano. A data foi incluída no calendário oficial de comemorações da cidade de São Paulo por iniciativa do vereador Goulart, e a Câmara Municipal já realizou sessões solenes para marcá-la. Segundo o clube, a comemoração ligada ao torcedor ocorre em 23 de abril desde 2010.
Nas redes, o Corinthians costuma publicar homenagens ao padroeiro nessa data, associando o santo à fé da Fiel. Na sede, a festa reúne celebrações religiosas, e a presença de torcedores mostra que a devoção atravessou gerações, mesmo entre quem não frequenta a igreja.
| Versão | O que defende | Ponto de atenção |
|---|---|---|
| Nome do terreno | A Fazenda São Jorge, comprada em 1926, trouxe o santo para o clube | Explica o nome da sede; a devoção pode ter vindo depois |
| Herança inglesa | O Corinthian londrino teria São Jorge como padroeiro, segundo Dom Arnaldo Beltrame | Não há documento conhecido sobre um padroeiro formal no clube inglês |
| Escolha dos fundadores | Os operários de 1910 já seriam devotos do santo | Nenhum registro escrito localizado |
| Reforço popular | O jejum de 1954 a 1977 intensificou a devoção | Explica a força da fé, não a origem |
Perguntas frequentes sobre São Jorge e o Corinthians
O Corinthians escolheu São Jorge em uma decisão oficial?
Não há registro de um ato formal de escolha. O clube reconhece três versões para a origem da devoção e afirma que nenhuma delas pode ser tratada como verdade única.
Por que a sede se chama Parque São Jorge?
Porque o terreno comprado em 1926 era conhecido como Fazenda São Jorge, nome dado por seus antigos proprietários, os primos Nagib Sallem e Assad Abdalla. O nome passou para a sede, o estádio e a rua.
O Corinthian inglês tinha São Jorge como padroeiro?
Essa é uma das versões, relatada pelo ex-capelão Dom Arnaldo Beltrame. São Jorge é o padroeiro da Inglaterra, mas não foi encontrado documento que comprove a devoção formal no clube londrino.
Qual é a relação entre São Jorge e Ogum?
Na umbanda, São Jorge é associado ao orixá Ogum, ligado à guerra e aos caminhos. O sincretismo ajudou a popularizar o santo entre torcedores de diferentes crenças.
Por que o 23 de abril é importante para a torcida?
É o dia de São Jorge e também o Dia do Torcedor Corinthiano, incluído no calendário oficial da cidade de São Paulo e celebrado pelo clube com homenagens ao padroeiro.